Hula Girls (2006)

Hula Girls

フラガール (Hura Gāru)

por Marco Souza

フラガール © Cinequanon

O cinema Hollywoodiano propagou a imagem de mulheres havaianas dançando hula, dança que foi levada por polinésios para as ilhas do Havaí e que virou algo característico de lá. Essa dança típica impregnou o imaginário internacional com imagens de mulheres de sarongue, usando colares de flores, flores nas cabeças, ondulando os braços e balançando os quadris ao ritmo de músicas precursoras da surf music. São imagens conhecidas no mundo inteiro e que criaram uma ambiência de exotismo e até de erotismo. A hula é uma forma de expressão complexa e há muitos movimentos coreografados que representam palavras durante a execução da música que acompanha a dança. O lado cultural e até religioso da hula não foi propagado pelo cinema, apenas o lado festivo e de celebração foi perpetuado. Os elementos folclóricos e de identidade nacional para os nativos havaianos da hula se dissolvem nas idealizações e transformações que o cinema constrói e que acaba passando para seus espectadores

フラガール © Cinequanon

No Japão a hula foi, pouco a pouco, virando uma mania nacional. De acordo com estatísticas há, atualmente, 275.000 praticantes da dança no Japão. Apresentações de profissionais, campeonatos de amadores e academias de hula estão espalhados pelo país e atraem tanto praticantes quanto espectadores. No embalar da popularidade da hula entre os japoneses, o filme Hula Girls remete ao início da paixão nipônica pela dança havaiana. Baseada em uma história real, a trama se passa em 1965 na pequena cidade japonesa de Iwaki, cuja principal atividade é a mineração de carvão. A cidade sofre com o declínio da mineração e com a demissão de 2.000 empregados e, ao mesmo tempo, há o investimento de 1 bilhão de ienes para a construção de uma atração turística na cidade, um centro de lazer havaiano chamado Joban (que viria a ser o famoso Spa e Resort Havaiano que existe até hoje no local). A maioria dos cidadãos se opõe à construção e rejeitam qualquer ligação com o empreendimento.

Mesmo assim, tem início o recrutamento de dançarinas de hula para trabalhar no centro. A maioria das mulheres da cidade, donas de casa, esposas, e filhas se recusam a colaborar e a se envolver em uma atividade que requer o uso de roupas e movimentos que elas consideram sugestivos e maliciosos. Apenas quatro mulheres se dispõem ao aprendizado, Sanae (Eri Tokunaga), que sonha em largar a vida de pequena cidade e de trabalho duro, sua melhor amiga Kimiko (Yū Aoi), que a apóia incondicionalmente, a funcionária nerd Hatsuko (Shoko Ikezu), que vê uma oportunidade de diversão, e a desajeitada Sayuri (Shizuyo Yamazaki), que é estimulada pelo pai. Para ensiná-las chega à cidade uma experiente dançarina de Tóquio, Madoka Hirayama (Yasuko Matsuyuki).

Hirayama começa o filme como uma personagem insensível e descuidada, que se vê como uma estranha no ninho e uma fracassada, forçada a debandar da sofisticada Tóquio para a atrasada e pobre Iwaki. Com o transcorrer da história, ela cresce e é transformada pelo contato com suas alunas e com habitantes da cidade, assumindo uma figura de mãe carinhosa e benevolente. Às quatro aprendizes de hula ― que com a Hirayama são as personagens principais e que têm seus comportamentos e vidas cotidianas esmiuçadas ― se juntam mais algumas esperançosas, que até o fim do filme compõem a primeira geração de dançarinas da cidade.

フラガール © Cinequanon

Hula Girls lembra filmes como Swing Girls (2004) e The Full Monty (Reino Unido,1997). A hula aparece como uma metáfora de superação, como uma forma de passagem de uma condição para outra. A dança transforma as personagens, tanto a professora quanto as alunas, e as que a aprendem tem a oportunidade de uma vida diferente, melhor, longe da pobreza e da dureza da mineração de carvão. A própria associação com o Havaí ressalta a diferença, a necessidade de transformação. Iwaki é uma cidade gélida, invernal, com cores cinzas. O centro de lazer havaiano traz o clima tropical, palmeiras, cores vivas, calor e alegria. O diretor coreano Sang-il Lee, que escreveu o roteiro com Daisuke Habara, carrega no melodrama e deixa pouco espaço para o humor, dosando as histórias das personagens principais, centrando um foco maior em Kimiko e Hirayama e criando sequências de hula em que a dança tem sua beleza acentuada, com a edição organizando os enquadramentos e ângulos de maneira a aproveitar o lado de espetáculo grandioso da dança. Com uma estrutura e mensagem tradicionais, Hula Girls rola seus créditos finais deixando o espectador com um fim edificante, em que os personagens aprendem sobre si mesmos e se tornam pessoas melhores. Aloha.

 *

Marco Souza é jornalista, vice-coordenador do Centro de Estudos Orientais da PUC-SP, doutor em Comunicação e Semiótica e autor do livro Kuruma Ningyo, O Teatro de Bonecos no Japão.

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One Comment on “Hula Girls (2006)”

  1. Anônimo disse:

    O filme é bom e tem muito trechos engraçados e como o texto acima mostra os dramas e exemplo de superaçao para o objetivo de melhora na vida simples com uma nova visão fora do campo de mineraçao


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