Who’s Camus Anyway? (2005)

Who’s Camus Anyway?

カミュなんて知らない (Kamyu nante shiranai)

(Quem é Camus? – BRA)

por Marco Souza

カミュなんて知らない © Gold View Co.

[ENGLISH]

Na famosa série de entrevistas que François Truffaut fez com Alfred Hitchcock, o diretor inglês comentou o desejo que tinha de fazer um filme sobre a feitura de um filme. Inspirado pela idéia, Truffaut dirigiu Day for Night (La Nuit Américaine, 1973), um longa com um toque metalinguístico em que se explora a rotina de uma trupe de cinema durante o período de uma filmagem. Day for Night tornou-se um dos mais famosos metafilmes já realizados. Todo o metafilme é um jogo de espelhos em que a criação de uma narrativa fílmica é a matéria prima utilizada para, de fato, se criar o filme.

A produção japonesa Who is Camus Anyway? segue a linha do metafilme por um viés diferente. Ao invés de tratar de uma produção profissional, a história acompanha a realização de um filme amador produzido por um grupo de universitários nipônicos. O diretor e roteirista Mitsuo Yanamigachi faz uma série de referências ao trabalho de diretores como Truffaut, Jean-Luc Goddard, Kenji Mizoguchi e Robert Altman. A própria sequência de abertura do filme é uma referência a The Player (O Jogador, 1992) de Altman. A história começa com uma tomada sem cortes de sete minutos que mostra um grupo de estudantes em um workshop de uma universidade de Tóquio planejando fazer um filme intitulado The Bored Murderer (O Assassino Entediado). Em determinado momento, os estudantes acabam discutindo quais são suas tomadas sem cortes preferidas do cinema, e uma das citadas é a abertura de The Player. Filme dentro do filme.

Para conseguir fazer, realmente, a filmagem, é necessário enfrentar problemas de orçamento, a troca do protagonista por outro ator (Hideo Nakaizumi), triângulos amorosos, questões de logística, a namorada instável (Hinano Yoshikawa) do diretor (Shūji Kashiwabara), que se vista como a Adele Hugo de The Story of Adele H. (L´ Histoire d´ Adèle H., 1975) de Truffaut, o ex-cineasta (Hirotarō Honda) e o professor e mentor dos estudantes, que também não é muito estável e assemelha-se com o personagem de Dirk Bogarde em Death in Venice (Morte a Venezia, 1971), de Luchino Visconti.

Um dos aspectos mais interessantes de Who’s Camus Anyway? é não se ater, exatamente, às questões técnicas, factuais e rotineiras da feitura de um filme, mas colocar em foco questões exteriores que acabam afetando e conduzindo a produção e as pessoas envolvidas na mesma. Há toda uma combinação de diferentes níveis de ficção: a ficção do filme que está sendo feito pelos estudantes, a ficção entorno da filmagem, e a ficção do cinema que é, em si, um grande faz de conta. É o jogo de espelhos, que reflete e cria imagens e miragens através de gradações que lidam com a prática e o imaginário do cinema.

O título do filme parece ser uma referência literária ao escritor Albert Camus. A estudante (Ai Maeda) que faz a assistente de direção compara o protagonista de The Bored Murderer com Arthur Meursault de The Stranger (O Estrangeiro), de Camus. A referência literária é também cinematográfica, já que Meursault foi interpretado por Marcello Mastroianni no filme homônimo (Lo Straniero, 1967) também de Visconti. Espelhos em frente de espelhos.

 *

Marco Souza é jornalista, vice-coordenador do Centro de Estudos Orientais da PUC-SP, doutor em Comunicação e Semiótica e autor do livro Kuruma Ningyo, O Teatro de Bonecos no Japão.

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