Bare-assed Japan (2005)

Bare-assed Japan

剥き出しにっぽん (Mukidashi Nippon)

por André Maffioletti

剥き出しにっぽん © Chavez's Cinema

[ENGLISH]

Yūya Ishii é um cara de sorte. Ele parece ter encontrado o seu lugar no mundo. E observando o seu résumé (8 filmes em 7 anos, duas retrospectivas em festivais de cinema renomados, e ele não tem nem 30 anos) é difícil não concordar. Ainda sim ele sente-se compelido a falar sobre pessoas um tanto diferentes dele mesmo, figuras peculiares totalmente desconfortáveis no que é supostamente o seu habitat natural. Isso nos faz pensar o que exatamente o diretor deseja realizar contando histórias sobre pessoas que não sabem o que estão procurando.

Talvez, como é frequentemente o caso de quem pode olhar de fora para dentro com o mesmo semblante confuso e idéias estapafúrdias dos que tentam olhar de dentro para fora, ele já esteve lá antes. Isso é certamente o que parece quando você observa Taro, o protagonista estonteado de Bare-assed Japan, o primeiro longa-metragem de Ishii, finalizado enquanto ele ainda era um estudante na Universidade de Artes de Osaka. Ao ver o jovem personagem vagar pela história, sem rumo aparente a seguir, você vai sentir uma pontada de reconhecimento na angústia reprimida crescendo dentro dele. Não há dúvidas: você já esteve lá também.

Pouco depois de terminar o colegial, Taro (Yuichi Toyono) não tem idéia alguma sobre o que fazer com sua vida. E infelizmente ele não tem muitos lugares onde buscar orientação. Seu pai (Shūya Nishizono), recentemente demitido, está mais preocupado em esconder suas revistas pornô da mulher do que dar algum conselho útil ao filho; o avô, embora não esteja senil, tem pouco mais em comum com o neto além de práticas masturbatórias. Então, em uma decisão mal pensada, Taro aluga uma casa caindo aos pedaços nos arredores da cidade, onde pretende cultivar legumes e viver uma existência mais simples. Em um impulso, ele convida Yoko (Rumi Ninomiya), uma amiga de escola de quem ele mal se lembra, para morar com ele. Em um impulso, ela aceita. Porém, o paraíso de sexo e salada que Taro deseja construir desmorona quando seu pai, sem ser convidado, decide ir morar com o casal antes mesmo deles desempacotarem seus poucos pertences.

剥き出しにっぽん © Chavez's Cinema

E num impulso a coisa vai. As decisões repentinas e ausência quase completa de propósito real com que os personagens navegam pela tela poderia significar desastre nas mãos de um cineasta menos qualificado, mas Ishii infunde nas perseguições vácuas de seus personagens um sopro surpreendentemente convincente de realidade. Você simpatiza com Taro e seus colegas, cada um deles abandonados na paisagem árida da vida adulta, despreparados e sem uma maneira de voltar no tempo. A vida é agora e eles não a viram chegando.

O enredo estabelece um cenário clássico para um conto de “fim da inocência”, mas para o crédito de Ishii, ele resiste à tentação de fazer uma Sessão da Tarde com a coisa toda. Quando o sonho idílico de Taro desmorona e ele é forçado a encarar a realidade, não há música de violino ou solo de piano. Não há um momento afirmação da vida, nenhuma lição transformadora. Em vez disso, Taro dá tudo de si mesmo em uma técnica de resolução de problemas puramente adolescente: ele enlouquece, esmurrar a mobília e vocifera palavrões às paredes. Exatamente com na vida real.

Ainda sim, este não é um filme comum sobre o quotidiano. Debaixo de todas as relações exacerbadas entre os personagens existe uma desajeitada jornada de descoberta, com personagens em busca de ideais improváveis afim de afirmar seu lugar na sociedade. A busca Taro para impor sua vontade sobre o mundo, e fazer um paraíso do terreno lamacento que ele aluga espelha as esperanças e expectativas de um bom pedaço dos jovens japoneses, nascidos durante a recessão e sem um norte verdadeiro para calibrar suas bússolas existenciais, olhando ao redor em busca de algo diferente do passado para ancorarem-se.

Apesar de bastante divertido, o expectador deve estar ciente de que esse é um filme de estudante por completo, com um ritmo ligeiramente truncado e pouca preocupação com a estética. A história é mais um ensaio humorístico visual sobre os absurdo da vida contemporânea do que uma comédia tradicional, com ênfase na qualidade literária do enredo ao invés da cinematográfica. Estamos falando de cinema no estilo mais independente o possível, e quem está acostumado com as voluptuosas produções de Hollywood tem grandes chances de se decepcionar. No entanto, se você deixar de lado a iluminação primária e os cenários monótonos, você encontrará em Bare-assed Japan muito com o qual se divertir, e se você já foi um adolescente perplexo com um senso deslocado de prioridades, muito também ao qual relacionar-se.

Dois meses depois de completar seu primeiro longa, Ishii iniciou a produção de seu próximo filme, Rebel, Jiro’s Love, e tem realizado um filme atrás do outro desde então. Até o momento, toda a sua filmografia remete às perspectivas tortas e palhaçadas mundanas de sua estréia. Lentamente, em meio a adolescentes (Girl Sparks em 2007), mães de luto (Of Monster Mode, 2007) e viúvos de meia-idade (A Man with Style, 2011) o diretor está se explorando todas as variações de um tema, deliberando sobre a necessidade inerente que todos nós temos de querer que a vida seja mais do que simplesmente viver.

 *

André Maffioletti é o coordenador do projeto Kinemopedia Nippon. Ele é formado em Estudos Cinematográficos pela Hunter College de Nova Iorque e atua como pesquisador do Centro de Estudos Orientais da PUC-SP e do grupo de pesquisas sobre Hayao Miyazaki comandado pela Prof. Dr. Michiko Okano.

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