The Sting of Death (1990)

The Sting of Death

死の棘 (Shi no toge)

(O Ferrão da Morte – BRA)

por Cássia Hosni

死の棘 © Shochiku Co.

Dirigido pelo cineasta Kōhei Oguri, o filme The Sting of Death (Shi no Toge), lançado em 1990, conta a história do casal Toshio e Miho Shimao e seus filhos Shinichi e Maya no Japão pós-guerra.

O filme é uma adaptação da novela homônima do escritor, ensaísta e crítico Toshio Shimao (1917-1986). Shi no Toge foi lançado originalmente em 1960 (em forma de contos) e publicado em 1977 como novela. Shimao escreve em tom autobiográfico, os desafios físicos e psicológicos que um casal enfrenta após a esposa ler o diário de seu marido, descobrindo a existência da amante.

A infidelidade do marido transforma a relação. A esposa, depois de dedicar-se há dez anos ao matrimônio aparentemente bem sucedido, aproxima-se à loucura, incapaz de esquecer o fato e retomar à vida cotidiana. As diversas tentativas do marido de resgatar o casamento, rompendo com a amante, mudando a família de casa, não funcionam diante a dúvida e a quebra de confiança já instauradas. Toshio encontra-se de tal modo preso a histeria da esposa Miho, que aproxima ele mesmo da loucura, ao tentar o suicídio como forma de desvincular-se do erro cometido no passado. Não conseguindo escapar da culpa e do esgotamento psicológico no qual se encontra o casal, os dois instalam-se em uma clínica psiquiátrica para tentar se salvar.

Densa, a adaptação fílmica de Oguri revela, seja na estaticidade dos planos, seja nos diálogos do casal, a impossibilidade do esquecimento. A contínua frequência em que Miho retorna à mesma questão da infidelidade, deixa o espectador extenuado, acreditando que talvez não exista solução, nem esperança. Os filhos também acabam vítimas e o sofrimento do casal passa a ser um sofrimento familiar.

Em uma das cenas, quando Miho acorda e ela não retorna ao assunto da traição, Toshio alegra-se, pedindo para que o filho Shinichi vá comprar pão com manteiga de amendoim para comemorar a cura da esposa, a calma familiar parece instaurada: Miho canta enquanto o portão da casa é reformado, os filhos vão ao cabeleireiro, e ela pede para o casal esforçar-se pela harmonia familiar. Porém, logo em seguida é Toshio quem caminha atrás dela, seguindo-a, e quando ela pergunta sobre a amante, Toshio grita e vai em direção a linha do trem para tentar suicídio.

Dentre os conflitos e calmaria, Oguri insere a paisagem de Amami Oshima (a maior ilha do arquipélago de Ryūkyū, no extremo sul do Japão), como se Toshio e Miho olhassem para o passado, onde a felicidade foi possível. Foi nessa ilha que os dois se conheceram. O escritor, antes de seguir vida literária, era um oficial kamikaze, que antes de ser convocado para o sacrifício, termina a II Guerra Mundial. Ele e Miho, que trabalhava como professora, casam-se logo depois, construindo uma família.

Além do filme de Kohei Oguri, ganhador do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes, e do Prêmio Internacional de crítica pela F.I.P.R.E.N.C.I (Federação Internacional de Críticos de Cinema), em 1990, a vida e obra do escritor também foram temas do documentário de Alexandr Sokúrov.

Em Dolce…, de 1999, o cineasta russo apresenta nos primeiros minutos a vida do escritor Toshio Shimao, mas, ao longo de sua extensão, é no relato da viúva e a convivência com a filha Maya, que uma outra face da família Shimao é mostrada, sensível e extremamente pessoal. No documentário, Miho não trata das questões passadas com o marido, mas sim, as recordações de seus pais, e a culpa perante a filha, que, depois de certa idade, tornou-se muda.

Pouco conhecido do grande público, a obra de Toshio Shimao foi traduzida, em 1985, para o inglês por Kathryn Sparling, do Centro de Estudos Japoneses da Universidade de Michigan. Em The Sting of Death and Other Stories, a pesquisadora fala sobre a dificuldade de traduzir a obra naturalmente densa e difícil do escritor. O surrealismo, muitas vezes presente em sua obra, não é apenas um recurso literário, mas uma forma de transmitir e potencializar a experiência vivida.

Longe de ser uma obra fácil, tanto nos livros escritos por Toshio Shimao, como na adaptação da obra de Kohei Oguri, percebe-se a incapacidade de desvincular a obra do personagem. A Guerra, mesmo que não seja presente de forma direta, apresenta-se na incapacidade de seus personagens continuarem, vivendo da recordação pungente do passado.

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