The Human Vapor (1960)

The Human Vapor

ガス人間第一号 (Gasu ningen dai ichigo)

(O Homem Gasoso – BRA)

por Marco Souza

[ENGLISH]

A transformação do corpo humano por causas científicas é um ponto comum em diferentes filmes do cinema fantástico. Histórias clássicas vindas da literatura como O Médico e o Monstro O Homem Invisível foram adaptadas para o cinema e se estabeleceram como arquétipos e até clichês para uma série de filmes que fazem parte da história do cinema e que são produzidos até hoje pela indústria cinematográfica mundial. A ciência e a tecnologia são colocadas como vilãs por conseguirem alterar o corpo humano para os resultados mais ameaçadores e condenáveis. Mutações horripilantes e os mais terríveis atos surgem das metamorfoses científico-tecnológicas, o que carrega um tom alarmista sobre os efeitos nocivos que o moto contínuo das inovações modernas pode trazer ao mudar e afetar o estado original das coisas. E, ao mesmo tempo, sempre revela que por trás de tudo há a vontade humana, que é o que acaba, realmente, levando ao lado mais trágico e cruel dessas alterações.

ガス人間第一号 © Toho Co.

No filme The Human Vapor (O Homem Gasoso), os efeitos desse tipo de metamorfose são, mais uma vez, utilizados como ponto de partida para se criar um thriller sobre crime, amor e mutação. Representante do gênero tokusatsu (mistura de ação, super poderes e efeitos especiais) e parte da chamada trilogia mutante do estúdio Toho junto com The H-Man (O Homem H, 1958) e The Secret of the Telegian (Mistério de Telegian, 1960), o filme é um dos exemplares da filmografia do lendário diretor e produtor Ishirō Honda que não se enquadra no registro dos monstros gigantes do Kaiju Eiga típico da obra dele. Com roteiro de Takeshi Kimura, fotografia de Hajime Koizumi, edição de Kazuji Taira e com efeitos especiais do não menos lendário Eiji Tsuburaya (responsável pelo design, movimentação e ambientação de personagens como Godzilla e Ultraman), The Human Vapor tem um enredo que vai, pouco a pouco, esclarecendo mistérios e conectando os personagens.

O filme começa com um assalto a banco que passa a ser investigado pelo inspetor Kenji Okamoto (Tatsuya Mihashi). Uma perseguição ao assaltante, que não é identificado, leva o inspetor à casa da dançarina de dança japonesa tradicional Fujichiyo Kasuga (Kaoru Yachigusa). O inspetor tem ainda uma ligação afetiva velada com a jornalista Kyoko Kouno (Keiko Sada) que também se interessa em investigar o caso como matéria jornalística. Outros assaltos a bancos acontecem, em que não se entende como foi possível para o assaltante, que continua sem ser identificado, entrar no banco, atravessar as grades do cofre e roubar o dinheiro guardado. A descoberta da identidade do assaltante é feita através do reconhecimento dos números de série das notas roubadas que são utilizadas por Kasuga para montar um espetáculo de dança para ela. A prisão da dançarina faz com que o assaltante, Mizuno (Yoshio Tsuchiya), o homem gasoso do título, apareça para libertá-la.

Mizuno era um piloto de testes que se aposentou por problemas de saúde. Após convalescer por um período em um sanatório, ele passa a trabalhar como bibliotecário, transformando-se em um homem solitário, frustrado e amargo. Por causa de sua experiência como piloto e sua limitação física, ele recebe uma proposta do Dr. Sato (Fuyuki Murakami) para se tornar cobaia de testes do cientista. Os testes dão errado, e Mizuno sofre uma mutação que permite ao seu corpo existir também no estado gasoso. Revoltado com sua transformação e com a revelação das experiências escusas do Dr. Sato, Mizuno acaba sufocando o cientista até a morte com sua composição gasosa. Ao virar o homem gasoso, Mizuno intensifica suas frustrações e sua condição à margem da sociedade. A única coisa que ainda mantém alguns bons sentimentos nele é sua paixão por Kasuga e pela dança dela. O amor é o que resta da humanidade de Mizuno.

Com elementos que podem indicar uma certa inspiração no Fantasma da Ópera, em que um homem se transforma em uma aberração e tenta patrocinar uma artista iniciante, The Human Vapor combina fantástico com romance. Dois casais permeiam a história, Mizuno-Kasuga e Kyoko-Okamoto. Kasuga representa a tradição, vestindo quimono, trabalhando com dança tradicional e com um comportamento introvertido. Kyoko representa a modernidade, usa vestidos, tem uma profissão liberal e um comportamento extrovertido. Kasuga depende do dinheiro de Mizuno. Kyoko paga a conta de restaurante de Okamoto. Mizuno é frio. Okamoto é vibrante. Os dois têm relações veladas e até platônicas com suas respectivas mulheres de forma completamente diferente. Mizuno e Kasuga têm uma relação contida e sutil, formando um casal tradicional, mulher submissa, homem provedor. Kyoko e Okamoto têm uma relação expansiva e mais clara, formando um casal moderno, os dois são independentes, têm profissões e papéis igualitários. No final do filme, os dois casais têm momentos em que um abraço terno ressalta, com delicadeza, a ligação e os sentimentos entre cada casal. A capacidade de se transmutar em gás é uma situação fantástica que aparece como metáfora do poder que a alteração tem para afetar o cotidiano comum das pessoas e como a alteração é sempre capaz de desencadear os fatos e comportamentos mais imprevisíveis.

ガス人間第一号 © Toho Co.

Com uma produção modesta, The Human Vapor tem, para a época em que foi feito, efeitos especiais que conseguem mostrar, de forma simples e eficiente, a transmutação do corpo humano em gás. O lado da mutação existem momentos muito pontuais no filme que servem como pano de fundo para as relações humanas entre os quatro personagens principais. O Homem Gasoso ocupa, atualmente, uma posição de filme reverenciado e citado, o que é um grande contraste com o período em que a versão mais conhecida era a edição americana. Assim como a mutação que o primeiro filme de Godzilla sofreu para ser exibido nos EUA, The Human Vapor foi, literalmente, refeito por uma edição que mudou a ordem das sequências, adicionou uma narração em off de Mizuno (dublado em inglês pelo ator sino-americano James Hong), sobrepôs a trilha sonora feita para The Fly (A Mosca, 1958 ) e cortou 11 minutos do original. O século XXI trouxe a divulgação internacional da versão japonesa e também permitiu que o público contemporâneo pudesse assistir e conhecer o formato original de um filme que deve ser visto como uma das muitas e inspiradas variações do cinema nipônico.

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Marco Souza é jornalista, vice-coordenador do Centro de Estudos Orientais da PUC-SP, doutor em Comunicação e Semiótica e autor do livro Kuruma Ningyo, O Teatro de Bonecos no Japão.

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