Família, Casamento e Relações…

Família, Casamento e Relações de Gênero no Filme Tokyo Sonata, de Kiyoshi Kurosawa (2008)

por Liliana G. Morais

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                         3.3. O Papel da Mulher

Enquanto o papel do homem no seio da família está estritamente associado à sua função de provedor, o papel da mulher não pode serdissociado da função de mãe e esposa. Em Tokyo Sonata a identificação de Megumi como mulher e até como indivíduo está estritamente relacionada com o seu papel dentro do modelo familiar “tradicional”. Isto é visível na sua reação quando o filho mais velho, Takashi, lhe sugere que peça o divórcio. No entanto, em parte devido ao conflito de papéis agravado pela situação de desemprego do marido, no final do filme ela acaba se questionando sobre a validade desse papel na sua vida.

Para além da dedicação às tarefas domésticas e à criação dos filhos, a mulher japonesa assume ainda uma função afetiva, de protetora do lar,funcionando como elemento reconfortante e apaziguador para os restantes membros da família. No filme, Megumi acrescenta um lado compreensivo e mediador nas querelas familiares, em oposição ao papel autoritário e austero do pai. Ela chega até a assumir uma postura servil em relação a todos os elementos da família, mas em especial em relação ao marido: à noite espera-o ao chegar em casa, ajudando-o a tirar os sapatos, recebendo-lhe a pasta, preparando-lhe banho e refeição; de manhã acorda antes de todos para preparar o café da manhã e o lanche dos filhos; durante o dia, dedica-se a tarefas domésticas como limpeza e compras.

                         3.4. A Relação Conjugal

A relação do casal Sasaki pode se definir com uma relação segregada, na qual impera uma segregação das atividades até ao ponto mínimo de troca ou partilha. Eles definem suas responsabilidades em termos do papel formal de gênero “marido/mulher” ou “pai/mãe” e suas ocupações livres são altamente separadas. Também a empatia e interesse nas preocupações do outro é mínima. Estes casais possuem então um alto grau de tarefas especializadas baseadas no gênero, atividades separadas, e um grau relativamente baixo de interdependência emocional e comunicação5.

Em Tokyo Sonata é notável o baixo nível de comunicação verbal entre marido e mulher. Na trama do filme não é também visível a existência de quaisquer interesses ou atividades em comum. No entanto, podemos perceber uma dependência afetiva de ambas as partes.

                         3.5. As Relações Parentais

Tal como em muitas famílias japonesas, também em Tokyo Sonata a responsabilidade de criar os filhos é concentrada na mãe. Devido à crescente urbanização e fragmentação da família em unidades nucleares no período do pós-guerra, as mulheres perderam tanto a assistência e experiência das mães como das sogras. Simultaneamente, no entanto, não houve um aumento compensatório na participação dos maridos6. No filme é notória a ausência de ambas as avós.

トウキョウソナタ © PiX

Enquanto o papel da mãe se associa aos cuidados básicos e cotidianos dos filhos, principalmente durante os seus primeiros anos, a noção de papel paterno relaciona-se menos com a participação nas tarefas cotidianas de criação, e mais com um papel moral, de incutir normas sociais e familiares básicas quando os filhos são mais crescidos7. O pai aparece então como uma figura líder, responsável por transmitir regras e valores. No entanto, devido à sua grande ausência no espaço doméstico e à relação mais estreita que os filhos acabam tendo com a mãe no dia-a-a, essa sua postura autoritária gera muitas vezes atritos na relação com os filhos, como se pode observar em várias cenas do filme. Aqui, é o Ryuhei quem tem a palavra final nas decisões a serem tomadas relativamente à sorte dos membros da família. Megumi assume um papel mediador, normalmente sem expressar sua opinião pessoal, mas fazendo uma ponte afetiva entre pai e filhos. O papel do pai comotransmissor de regras e valores é especialmente expressivo durante a discussão que este tem com o filho mais novo, Kenji, acerca das aulas de piano:

トウキョウソナタ © PiX

Já disse uma vez que não [pode tocar piano]. Não posso voltar atrás. Afeta a minha autoridade enquanto pai. Fui demasiado brando com Takashi. Ao Kenji, enfio os valores parentais pela garganta abaixo, se for preciso. Tens de me ajudar. Ele precisa de uma mensagem clara
de nós os dois8.

Assim, enquanto o pai assume geralmente uma postura autoritária, repreensiva e às vezes até agressiva nas questões familiares, a mãe assume um papel mais compreensivo e afetivo, por vezes até encobrindo os filhos. No entanto, na discussão transcrita acima, Ryuhei acaba pedindo a contribuição da esposa nesse papel de transmissor de valores paternos.

  1. Conclusão

No clímax da crise familiar, já perto do final do filme, o diretor Kiyoshi Kurosawa descarta o retrato realista da situação familiar e envereda por um certo surrealismo tragicômico para justificar a resolução da crise pela qual passam cada um dos membros da família.

A Megumi sucede-lhe um curioso sequestro por um chaveiro desempregado, que lhe pede para dirigir um carro roubado, do mesmo modelo que ela fantasiou comprar, e por quem acaba criando um certo afeto amoroso. Esse acontecimento surreal desperta em Megumi o sentimento há muito ignorado por autonomia e liberdade de fazer certas escolhas (como comprar um carro conversível ao invés de um automóvel familiar) independentemente do que é esperado do seu papel de mãe e esposa. Nesse momento do filme ela deseja que toda a sua vida tivesse sido um sonho e que a partir dali pudesse acordar sendo outra pessoa.

Uma situação análoga de desejo de poder “começar de novo” acontece com o marido, que é descoberto pela esposa trabalhando como empregado de limpeza num shopping e entra em desespero.

トウキョウソナタ © PiX

No entanto, e apesar dos contratempos, todos os membros da família acabam voltando para casa (com exceção do filho mais velho, que retorna da guerra no Médio Oriente mas decide ficar residindo nos Estados Unidos). Depois da noite em que cada um passa por um acontecimento bizarro que lhe permite pesar toda a sua vida, a crise familiar é resolvida, com o filho mais novo prestando audiência para uma escola de música, durante a qual o pai se emociona.

Assim, apesar da aparente crítica que o diretor faz aos valores familiares patriarcais que perduram na atual sociedade japonesa e que têm maior repercussão no papel da mulher na sociedade, o filme acaba numa reconciliação familiar, com Megumi voltando para casa para o seu papel de mãe e esposa. Este regresso ao papel “esperado” é expressivo no momento em que a primeira coisa que Megumi faz ao chegar em casa é preparar uma refeição. Já sentado à mesa está o filho mais novo. E, finalmente, quando o marido chega a casa, encontra a esposa e o filho sentados à mesa posta esperando-o para iniciar a refeição, como ditam as regras e valores familiares “tradicionais”.

NOTAS
^5 Coleman, 1983, p. 127-130.
^6 Coleman, 1983, p. 132.
^7 Nakatani, 2006, p. 96
^8 Transcrição a partir da legenda da versão portuguesa do filme.

BIBLIOGRAFIA

COLEMAN, Samuel. Family Planning in Japanese Society: Traditional Birth Control in a Modern Urban Culture . New Jersey: Princeton University Press, 1983.

CARROLL, Tessa. Changing Language, Gender and Family Relations in Japan. Em: REBICK, Marcus; TAKENAKA, Ayumi (ed.) The Changing Japanese Family. London: Routledge, 2006.

GARCIA DOS SANTOS, Yumi. Conciliar Vida Familiar e de Trabalho no Japão: Ainda Uma Escolha Ousada para as Mulheres . Em: Anais do XVII Encontro Nacional de Professores Universitários de Língua, Literatura e Cultura Japonesa. São Paulo: Centro de Estudos Japoneses da Universidade de São Paulo, 2006, p. 413-415.

HIRATA, Helena. Vida Reprodutiva e Produção: Família e Empresa no Japão. Em: Nova Divisão Sexual do Trabalho? Um Olhar Voltado para a Empresa e a Sociedade. São Paulo: Boitempo Editorial, 2002, Cap. 6, p. 133-146.

NAKATANI, Ayumi. The Emergence of ‘Nurturing Fathers’: Discourses and Practices of Fatherhood in Contemporary Japan. Em: REBICK, Marcus;

TAKENAKA, Ayumi (ed.) The Changing Japanese Family. London: Routledge, 2006.

REBICK, Marcus. Changes in the Workplace and Their Impact on the Family. Em: REBICK, Marcus; TAKENAKA, Ayumi (ed.) The Changing Japanese Family. London: Routledge, 2006.

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