Família, Casamento e Relações…

Família, Casamento e Relações de Gênero no Filme Tokyo Sonata, de Kiyoshi Kurosawa (2008)

por Liliana G. Morais

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トウキョウソナタ © PiX

  1. Introdução

O presente artigo pretende abordar alguns aspectos das relações familiares, matrimoniais e de gênero do Japão contemporâneo através da análise do filme Tokyo Sonata, de Kyoshi Kurosawa.

O filme, lançado em 2008, retrata o cotidiano de uma “típica” família japonesa, centrando-se na questão do desemprego do pai, principal provedor, situação a partir da qual se desenrola a trama. A partir desta conjuntura o diretor toca em temas como o papel da esposa e relações parentais, fazendo uma caricatura, que é simultaneamente uma crítica, da “família japonesa tradicional” no Japão de hoje.

  1. Sinopse

Em Tokyo Sonata Kurosawa nos apresenta os Sasaki, uma família japonesa comum de classe média dos subúrbios de Tóquio. O pai, Ryuhei, é um típico trabalhador assalariado em uma empresa japonesa. A mãe, Megumi, é dona de casa, dedicando-se essencialmente às tarefas domésticas e educação dos filhos. Takashi, o filho mais velho, faz arubaito1 distribuindo propaganda na rua. E Kenji, o filho mais novo, sonha em aprender a tocar piano.

Mas o desemprego inesperado do pai, aliado ao alistamento do filho mais velho no exército norte-americano, acaba desencadeando uma crise família que revela os problemas e frustrações de cada um dos seus membros. Ryuhei entra em crise de identidade perante o desemprego, que tenta esconder da família, saindo de casa todo o dia no mesmo horário, com roupa de assalariado, para procurar trabalho. Takashi se alista no exército norte-americano numa necessidade de se sentir útil à família e ao país. Kenji, que é proibido pelo pai de tocar piano, faz aula às escondidas com o dinheiro do lanche. E Megumi, aparentemente um personagem secundário e supostamente o pilar de suporte da família, se descobre infeliz no papel de esposa, mãe e dona de casa e acaba sonhando em perseguir seus sonhos individuais.

  1. As Relações Familiares, de Casamento e Gênero no Japão Contemporâneo:  O Exemplo de Tokyo Sonata.

                         3.1. A Estrutura Familiar

A família Sasaki de Tokyo Sonata segue o ideal do Ie, sistema familiar patriarcal que se caracteriza pela preservação da linhagem e da propriedade, responsabilidade do chefe de família. O sistema Ie, instituído oficialmente na era Meiji, atribuía ao patriarca um conjunto de privilégios, entre os quais o direito de decidir sobre a sorte dos membros da sua família. Mesmo com as mudanças decorrentes da ocupação americana após a Segunda Grande Guerra a estrutura do Ie manteve-se na forma de dominação paterna e conjugal e continua expressiva até aos dias de hoje no seio de várias famílias. No caso dos Sasaki, ela representa o modelo nuclear urbano difundido no pós-guerra, que se tornou um modelo homogeneizado da “típica” família japonesa contemporânea. Ou seja, na família Sasaki o patriarca detém, superioridade e autoridade sobre os restantes membros, esposa e filhos, geralmente dois, com os quais partilha o mesmo domicílio. Este modelo pressupõe ainda uma divisão sexual do trabalho, sendo o chefe de família o provedor e a esposa, dona de casa (shifu), responsável pelas tarefas domésticas e a educação dos filhos.

トウキョウソナタ © PiX

Kyoshi Kurosawa parece pretender estereotipar o retrato da família japonesa, ao apresentar Ryuhei com um trabalhador assalariado(sarariman ou “colarinho branco”) numa importante empresa, a Companhia Tanita, da qual é demitido do cargo de Diretor de Administração, devido à ameça da mão-de-obra barata chinesa. Ao apresentar esta conjuntura Kurosawa retrata também a crise econômica que atingiu o Japão a partir da década de 90 e que colocou em risco o “emprego para toda a vida”, uma realidade no Japão das décadasanteriores.

                         3.2. A Divisão Sexual do Trabalho

A divisão sexual do trabalho surge nos países industrializados, assim como no Japão, simultaneamente à difusão do trabalho assalariado, colocando a mulher no papel de mãe e esposa e o homem, chefe de família, no papel de principal provedor. Esse papel exige do homem uma dedicação quase exclusiva ao trabalho, estabelecendo-lhe como espaço e tempo próprio o da empresa, em contraposição ao espaço doméstico, ao qual a esposa deve dedicação total. A mulher deve então dedicar-se a todas as tarefas domésticas e ainda à criação dos filhos, especialmente no que diz respeito aos cuidados mais básicos e cotidianos destes. Já o marido, regra geral, não participa de nenhuma destasatividades. De fato, o suporte econômico por parte do homem justifica a falta de participação nas tarefas quotidianas3. A divisão sexual do trabalho implica assim e também uma divisão sexual do espaço e do tempo na relação entre homem e mulher.

Na família Sasaki essa divisão sexual do trabalho, do tempo e do espaço é evidente. Em Tokyo Sonata, todos os membros da família e em especial a mulher, se organizam em função da empresa, isto é, do trabalho do provedor, adaptando-se aos seus hábitos horários. Um exemplo desta situação é a cena em que Megumi adormece no sofá enquanto espera o marido chegar tarde em casa para o receber, preparando-lhe o banho e oferecendo-lhe o jantar.

トウキョウソナタ © PiX

No entanto, o fato de a mulher se dedicar às atividades domésticas não lhe confere autoridade absoluta nesse domínio, nem o fato de o marido lhe entregar o salário do mês lhe acrescenta maior poder fiscal4. Em Tokyo Sonata podemos ver Ryuhei entregar o pagamento mensal a Megumi mesmo perante a situação de desemprego. Apesar disso, ao longo do filme é evidente que ele possui na maior autoridade e poder de decisão sobre o destino dos filhos.

Ademais, o efeito da recessão nas famílias é aqui retratado através da questão do desemprego, apontado no filme como um dos elementos perturbadores da estrutura familiar, ao gerar um conflito de papéis. Ao perder o papel de provedor, Ryuhei parece recear a perda da autoridade perante a esposa e os filhos, ou seja, o seu papel de chefe de família. O fato de omitir a sua situação de desempregado expressa essa identificação direta do homem que é pai e marido com a função de provedor, definindo sua masculinidade.

NOTAS
^1 Trabalho em part-time geralmente praticado por estudantes e jovens.
^2 O trabalho assalariado difundiu-se no Japão na era Taisho (1912-1926), associado à urbanização e industrialização aceleradas.
^3 Coleman, 1983, p. 137.
^4 Idem.
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